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A enchente levou meu piano amarelo...

  • 7 de out. de 2015
  • 3 min de leitura

“... a Vila Brejo era banhada pelo rio Sucuri, o que era legal, pois geralmente durante as chuvas de janeiro, quando o rio estava muito cheio, gostávamos de ficar numa das margens ao lado do Ristorante Tia Corina contemplando aquele mundo de água. A força da água era tamanha que muitas bananeiras e árvores eram impiedosamente levadas rio abaixo. De vez em quando até moleques!...”.

“... todos os anos nos meses de janeiro, a vila ficava em estado de alerta total por causa do volume das chuvas. Segundo os mais antigos historiadores da vila, Dona Santina Barril e Seu Alfredo Pudim, toda a nossa vila já fora um grande pântano...”.

“... todos os moradores, inclusive meu pai e meus tios, faziam vigílias naquelas madrugadas chuvosas, acompanhando o quanto o rio estava enchendo ou baixando. Evidentemente, se o rio transbordasse durante a noite nos pegaria em pleno sono e o perigo de uma tragédia seria grande...”.

E ela veio! A tragédia da enchente...

“... a chuva insistia em cair há duas semanas, sem dar qualquer trégua. Na primeira semana de chuva, tudo bem, nem as partidas no Campinho foram interrompidas. Muito pelo contrário, a molecada fazia uma festa danada naquele campo encharcado....”.

“... mais do que fazer o gol, o desafio maior era ficar em pé, pois, o Campinho ficava um “sabão”...”.

“... durante aquela semana molhada Sapão convidou alguns de nós para a construção de uma jangada. Ela seria feita de troncos de bananeiras, amarradas com cipó. Sapão queria muito aproveitar aquele rio cheio para se aventurar, mas nenhum de nós era tão maluco quanto ele...”.

“... no meio daquela segunda semana de tempestades, como o transbordamento do Sucuri era só uma questão de tempo, minha família começou a se preparar para o “bombardeio” das águas...”.

“... a estratégia era, antes de abandonarmos nossos “barracos”, conseguirmos salvar o que tínhamos de mais valioso. Alguns móveis e eletrodomésticos foram içados até o teto, ou seja, foram pendurados na armação de madeira do telhado de modo que ficassem a alguns bons centímetros do chão...”.

“... passava pouco mais das 10h daquela manhã de sexta-feira, quando os primeiros gritos de Seu Brasílio vieram. Ele foi o primeiro a ser atingido pelas águas...”.

“... nossa correria começou. Eu, minhas irmãs e meus primos corremos pra rua principal. Apostos, estavam alguns colegas do meu pai, os quais tinham veículos. Entre eles, com seu caminhão velho e barulhento, estava Zé Cascudo, que já tinha sido bombeiro da cidade, mas que detestava água...”.

“... enquanto os adultos lançavam o que era possível no caminhão de Cascudo, os carros pequenos se enchiam primeiramente de crianças. Lembro-me que embarquei com minhas irmãs no táxi do meu tio Genor. Ele morava numa casa ampla na região montanhosa da Vila Antunes, que era uma das melhores localizações para a prática de voo de asa delta e de escalada...”.

“... eu curtia muito ir à casa do meu tio Genor. Lá encontrava meus primos Gibizinho, Orca e Peixe Frito. E foi pra lá que ele nos levou e onde ficamos acampados por quase uma semana até a água do Sucuri baixar...”.

“... uma semana depois voltamos pra casa e conferimos desolados o estrago que a enchente havia causado à nossa vila...”.

“... Sapão havia quase morrido durante a cheia, pois sua jangada se desmantelou e ele foi salvo na última hora por seu irmão Jetinho....”.

“... Seu Brasílio perdeu a metade dos doces na água, a outra metade foi devorada pelos seus netos Quinho e Bill...”.

“... Jacolino e Regica, assim como eu, perderam a maioria dos velhos brinquedos. O que mais senti foi ter perdido meu piano amarelo igual ao do Shroeder, um dos vários personagens da série Peanuts de Charles Schulz...”.

“... minha vó, tadinha, tinha levado um prejuízo danado com a destruição da sua horta e com a perda de algumas galinhas que simplesmente desapareceram, talvez comidas pelos jacarés e cobras que chegaram com a enchente, ou abatidas por Cuecão e sua espingarda...”.


O Campinho?


Imaginem...



 
 
 

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