"Dias de cão"...
- 1 de out. de 2015
- 3 min de leitura
"... desde que me conheço por gente, já brincava com cachorros. Sempre gostei dos cães, com exceção daqueles pilantrinhas da Dona Japonesa. Kelly era uma fêmea da raça pastor alemão que pertencia a minha vó. Pra mim Kelly sempre existiu, pois, quando ainda estava aprendendo a andar, já me lembro dela desfilando glamorosa pelo nosso quintal. Ela era imensa! Uma ótima companheira de aventuras. Lembro de brincar bastante com ela tentando derrubá-la em vão. Como ela era forte! Adorava crianças, exceto Regica, que sempre foi um inimigo dos animais. O que Regica queria era sempre usar os animais como alvo de suas pontarias descalibradas com aquele velho estilingue. Regica, Carlo Cuecão e Eliel Beiçudo formavam o trio mais odiado pelos animais da vila...".
"... de vez em quando era bom levar Kelly pra dar uma voltinha no Campinho. Era uma forma de eu provocar os cachorrinhos da Japonesa. Afinal, eles morriam de medo dela. Por isso, só ficavam latindo a uma boa distância. Mas, demorava um pouco e a Japonesa surgia por trás deles, enxugando as mãos no avental. Então, eu e Kelly nos mandávamos pra casa. Kelly era definitivamente minha parceira! - Boa garota – eu dizia, enquanto acariciava sua cabeça enorme.
Pra tornar as coisas mais divertidas, eu sempre incitava Kelly a dar um “corridão” nuns galos de briga da vó, só pra assustá-los e mostrar pra aqueles peitos empinados, quem mandava no pedaço. Até hoje não sei por qual razão, mas Kelly nunca pôde ser mãe. Tudo bem, quem precisava de outros cachorros além daquela garota?...".
"... mas, Kelly adoeceu...".
"... naquele tempo não havia veterinários na cidade, e, ninguém sabia qual era o problema da grandalhona. Ela foi emagrecendo e sua situação ficando cada vez mais triste. E então, vendo o estado da Kelly, Seu Paraíba, o “Açougueiro da Morte”, foi até minha vó e meus tios para falar algumas coisas que sabia acerca da doença da cachorra. Parecia algo grave.
Kelly adorava dormir naquele cantinho debaixo da mesa, na antiga casa da minha tia Cecília. Era uma casa velha, e, além de muitas tranqueiras, sabíamos que era onde Kelly tirava seus cochilos na parte da tarde...".
Pum - escutei...
"... um barulho alto, seco; parecia abafado...".
"... caminhei rapidamente até a velha casa onde estaria Kelly deitada. E ela realmente estava deitada. Seus olhos estavam fechados. Há poucos metros dela, lá estava ele... Segurava uma espingarda colada ao peito...".
"... era o “Açougueiro da Morte”...".
"... - Ela estava sofrendo muito. – foi o que ele me disse antes de sair...".
"... - Minha amiga se foi... - pensei...".
"... eu precisava fazer algo... Meu choro e tristeza podiam esperar...".
"... convidei alguns amigos pra me ajudarem a enterrar Kelly, mas, resolvemos, ao invés de enterrá-la, dar-lhe uma despedida diferente, no costume viking. Então, amarramos com cipó a pobre cachorra em algumas caixas de madeira usadas para carregamento de bananas, sobre alguns troncos de bananeira que Moisés Sapão tinha usado naquela enchente, pra fazer um tipo de jangada. E lançamos Kelly no rio Sucuri. Embora a tradição viking dissesse que deveríamos atear fogo ao corpo dela, eu e meus amigos não tivemos coragem...."
"... e, assim, eu e meus melhores amigos sentamos na beira do rio e ficamos observando Kelly descer lentamente e silenciosamente rio abaixo... Recordei-me novamente da partida de Silvana e pensei na morte que tinha chegado à nossa vila, sempre tão cheia de vida e alegria...".
"... então, senti raiva da morte e questionei enfurecido em meus próprios pensamentos sobre o porquê da sua chegada na vila...".
"... morte...Que visita inesperada... - finalmente, pude chorar...".


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