Romance no Campinho!
- 26 de set. de 2015
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“... as primeiras meninas que, mesmo sem entender nada de futebol, surgiram, foram minhas irmãs Lelê e Lili. Além delas, Tiani, a irmã mais velha de Jacolino e minha prima Dani Banguela, a qual foi uma das poucas que chegou a jogar conosco, embora só fosse boa em chutar a canela dos garotos. Nas férias escolares, com a chegada de meu tio Totó, sua filha mais nova, Marciana, começou a se interessar de repente pelos jogos. Ela era bem diferente de nós. Era uma garota da cidade grande. Não andava descalça e nem se arriscava a subir na goiabeira e nem era muito a fim de banana assada. Ela trazia um binóculo, sentava-se numa cadeirinha de praia perto do pé de jambo, no terreno da vó, passava um creminho Johnson no rostinho pálido e ficava olhando para os carinhas e se partindo em risadinhas. Sem dúvida, os pivetes estranharam bastante no começo, a presença das meninas em volta do Campinho, porém, alguns deles começaram a fazer charme e se exibirem para o público feminino. Alguns inventaram dar cambalhotas após marcarem um gol, outros mais metidos anotavam um golzinho e mandavam beijinhos e tchauzinhos para as meninas. Moisés Sapão, como sempre muito “pancada”, logo que viu Marciana chegando, resolveu saltar o fosso com um mortal de costas, e acabou caindo de cabeça no fosso imundo. Marciana, que era o foco das atenções, adorava ver aquelas palhaçadas. Mas, a pior delas foi a mancada que Samuca deu na frente das meninas. Ele estava interessadíssimo em Marciana, apesar de mexer sempre com Banguela e Tiani. Assim, o gorduchinho fez um bonito gol, é verdade, e ao perceber as palmas de Marciana, o lesado resolveu dar um mortal pra frente e realizar um espacato! Coitado! Rasgou seu calção e precisou ser levantado do chão pelos seus companheiros de time. O pior é que havia esquecido de botar sua cuequinha. Imaginem que vergonha! Foi uma lástima e um rio de gargalhadas das arquibancadas e principalmente das meninas...”.
“...bom, se Samuca e alguns moleques bancaram bobalhões, meu amigo Quinho, que também estava ligadão em Marciana, resolveu chamar a atenção da menina de um jeito mais apropriado. Então, num dia inspirado, Quinho driblou como nunca e marcou vários gols, e, no último deles, o cara correu até a linha lateral em direção à Marciana e levantou sua camiseta mostrando uma frase escrita em seu peito, com batom vermelho que emprestou de sua mãe Cleusinha: - Marciana é uma gatinha! Não satisfeito, Quinho deu uma volta olímpica. Nossa! Vocês tinham que ver como Marciana ficou de boca aberta e com os olhos esbugalhados diante da atitude de Quinho...”.
“...e não é que ela se apaixonou por meu amigo Quinho!...”.
“...Quinho era um tipo de James Dean, um ator americano que era o próprio símbolo da rebeldia juvenil dos anos 50. Quinho expressava boa parte de sua rebeldia e inconformismo com a cultura dominante, escrevendo poemas “sem pé nem cabeça”, fazendo grafite e participando de passeatas pelo fim da obrigatoriedade em estudar. Ele usava umas jaquetas malucas com desenhos bem pirados que ele mesmo pintava, botava umas calças rasgadas e sujas, coturnos e tênis All Star ou às vezes Kichute; o carinha marcava presença nas festinhas americanas da Vila Brejo, nas quais os meninos costumavam levar tubaínas e paçoquinhas, enquanto que as meninas levavam pastel de banana, pastel de vento e de goiaba.
"...não demorou muito pra flagrarmos Quinho e Marciana agarradinhos debaixo da cobertura da doceria do Seu Brasílio, avô do “Don Juan”. Logo, Quinho e Marciana assumiram um namoro. Aquele namoro não caiu muito bem pra mãe de Marciana, tia Cicinha. Por outro lado, tio Totó não esquentava muito a moringa, pois achava Quinho muito estiloso...”.
Ênho, fotógrafo paparazzi e dono do Jornal Brejeiro da Vila Brejo, publicou o flagrante do precoce casalzinho às escondidas.


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